Mostrar mensagens com a etiqueta biblioteca. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta biblioteca. Mostrar todas as mensagens

19 de maio de 2012

26 de março de 2012


"Era uma menina. Nasceu ao meio-dia, apenas seis horas depois de me rebetarem as águas. Pareceram-me seis dias e se a Mãe Ruby me tivesse dito que foram seis anos, teria acreditado nela. Saí do parto com uma sensação de exultação pacífica e o sorriso que horas depois me cumprimentou no espelho da casa de banho, não pertencia a uma criança zangada e odiosa que transportava baldes de cardos das valetas à beira das estradas. Agora era uma mulher, e mãe.
A Mãe Ruby disse que tinha sido um parto perfeito, que a bebé era perfeita e que eu seria uma mãe perfeita. Enquanto Renata foi à loja comprar fraldas, a Mãe Ruby deu banho à bebé e depois coloco-a bem quentinha nos meus braços, pela primeira vez. Estava à espera que estivesse a dormir, mas encontrei-a acordada. Os seus olhos estavam abertos, observando o meu rosto cansado, o cabelo curto e a pele pálida. O rosto dela contorceu-se no que parecia um sorriso meio de soslaio e na sua expressão muda vi gratidão, alívio e confiança. Desejei desesperadamente não a desiludir.
A Mãe Ruby levantou-me a camisa, segurou no meu seio e pressionou o rosto da bebé contra a pele erguida. Ela abriu a boca e começou a mamar."
*
*
*

5 de março de 2012


"Ela é a principal personagem da sua história, assim como eu sou a personagem principal da minha. Clare não teria sido capaz de explicar estes pensamentos, ou dar alguma razão para para o sentimento de espanto que teve ao pensá-los. Pareciam óbvios, mas não eram. De certo modo, eram  revelações. (...) Às cinco horas da manhã, acordei. A porta do meu apartamento estava aberta. Clare tinha desaparecido. Será que tenho de descrever o que senti? O pânico afogueado e escaldante, o fôlego transformado num gemido, as orações desesperadas e em voz alta? Toda a gente conhece um tempo assim, e, se não conhece, hão-de conhecer. Já todos o vimos. Uma mãe no meio de uma praia, um pai no meio de uma zona comercial, a baby-sitter no meio de um parque, que apenas viraram as costas por três segundos, só três segundos, e o que todos sabemos é que não importa quanto tempo este momento dura, ainda que seja breve. É sempre infinito. E mesmo se uma criança foi apenas atrás de uma gaivota, ou se escondeu no meio de um cabide de roupas, ou se foi fazer festas a um cão a alguns metros de distância, durante esse momento sem fim, a criança perdeu-se para sempre. (...) "Não, Cornelia, não somos". A voz de Teo estava seca que nem poeira. "Mas de acordo com a teoria, porque a maior parte dos machos e das fêmeas que crescem juntos são irmãos, todos os machos e fêmeas que passam a infância juntos ficam condicionados a não ter atracção sexual uns pelos outros. É o instinto". (...) Sim, é verdade, o que eu disse antes: uma vida a séio não quer dizer que alcançamos o que queremos. O verdadeiro feito, e o privilégio, é sabermos o que amamos. E conseguir o que amamos? E ter o que amamos a amar-nos de volta? Oh, amigos, é um milagre. É a colisão da nossa vida minúscula com a divindade. (...) E continuámos estrada fora, com as montanhas azuis e acolhedoras ao fundo, até desaparecerem. Mas não desapareceram de facto. As montanhas, Clare, a Sra. Goldberg, a minha mãe e o meu pai, Ollie, Cam, Toby, Linny, Martin, Viviana, todos lá estão. Vocês também. O meu coração é grande. Consegue conter tudo ao mesmo tempo, e até a estrada onde vou, com Teo, conseguem vê-la? Vai-se para trás, ou para diante, e, seja qual for o caminho que se tome, a direcção é a mesma. Sabem de que direcção estou a falar: o caminho de casa."
***
E, este foi o 2º livro que me fez chorar... não muito...but still :)
*
*
*

22 de fevereiro de 2012

"Recorda-me, pois não parti.
Estou no ar que respiras -
Estou em todas as partes de ti.

Recorda-me quando o sol brilha;
Sou vidro -
O sol brilha através de mim.

Recorda-me quando a noite chega;
Assombrarei os teus sonhos."
***
Aqui está alecrim, para recordar;
peço-te, meu amor, que não te esqueças.
Hamlet, 4.5
*
*
*

12 de fevereiro de 2012

Após o final da Segunda Guerra Mundial, um aristocrata excêntrico é assassinado no seu palazzo italiano. Vinte anos mais tarde, este crime por resolver toca a vida de Alba, uma rapariga que vive num barco em Chelsea, na década de 1960. Entre estas duas épocas estende-se uma narrativa de amor, decadência e traição que conduz Alba até à costa de Amalfi, ao drama da guerra e à decadência da tragédia. O passado ressurge, revelando uma teia secreta de resistentes e nazis, de camponeses e condes e, no centro de tudo, uma fascinante e misteriosa mulher - a sua mãe.

Alba não irá investigar apenas um homicídio: investiga igualmente uma verdade proibida, e o que descobre no passado é doloroso, mas é a porta para o seu próprio futuro.

*
*
*

3 de janeiro de 2012

"Nesta ilha bucólica de Chiloé, a minha agitação do passado parece incompreensível. Não sei que reboliço interior era aquele que antes não me dava tréguas, porque motivo saltava de uma coisa para outra, sempre à procura de algo sem saber o que procurava; não consigo recordar com clareza os impulsos e sentimentos dos últimos três anos, como se a Maya Vidal de então fosse outra pessoa, uma desconhecida. Falei disto com Manuel durante uma das nossas raras conversas mais ou menos íntimas, quando estamos sozinhos, chove no exterior, faltou a luz e ele não se pode refugiar nos seus livros para escapar ao meu palrar, e Manuel disse-me que a adrenalina é viciante, habituamo-nos a viver no fio da navalha, não podemos prescindir do melodrama, que no fim de contas é mais interessante do que a normalidade. Acrescentou que na minha idade ninguém deseja paz de espírito, estou na idade da aventura, e este exílio em Chiloé é uma pausa, mas não se pode transformar numa forma de vida para alguém como eu. (...) Tinha emagrecido vários tamanhos de roupa, tinha os ossos salientes nas clavículas e nas ancas e as minhas pernas, antes tão fortes, metiam dó. Não tive oportunidade de me pesar até dezembro, e então descobri que tinha perdido treze quilos em dois meses. As casas de banho públicas eram antros de delinquentes e pervertidos, mas não tinha outro remédio senão tapar o nariz e usá-las, já que as de uma loja ou de um hotel estavam fora do meu alcance, ter-me-iam expulsado dali aos empurrões. Também não tinha acesso às casas de banho das estações de serviço, poruqe os empregados negavam-se a emprestar-me a chave. E, deste modo, fui descendo com rapidez os degraus do inferno, como tantos outros seres abjetos que sobreviviam na rua mendigando e roubando por um punhado de crack, um pouco de metadona ou de ácido, um gole de algo forte, áspero, brutal. Quanto mais barato o álcool, mais eficaz, exatamente aquilo de que eu precisava. Passei outubro e novembro da mesma forma, não consigo recordar com clareza como sobrevivia, mas lembro-me bem dos breves instantes de euforia e, depois, da caçada indigna para obter outra dose. Nunca me sentei numa mesa, se tinha dinheiro comprava tacos, burritos ou hambúrgueres, que a seguir vomitava sacudida por arcadas intermináveis, de joelhos na rua, com o estômago em chamas, a boca rebentada, chagas nos lábios e no nariz, nada limpo nem amável, lixo, vidro partido, baratas, cacos, nem um só rosto na multidão que me sorrisse, nem uma só mão que ajudasse, o mundo inteiro estava povoado de traficantes, agarrados, chulos, ladrões, criminosos, putas e loucos. Doía-me o corpo inteiro. Odiava aquele corpo lixado, odiava aquela vida lixada, odiava não ter a vontade lixada de me salvar, odiava a minha alma lixada, o meu destino lixado. Em Las Vegas, passei dias completos sem cumprimentar ninguém, sem receber uma palavra ou um gesto de outro ser humano. A solidão, aquela garra gelada no peito, venceu-me de tal forma que não me ocorreu a solução simples de pegar num telefone e telefonar para a minha casa em Berkeley. Teria bastado isso, um telefonema; mas por essa altura eu tinha perdido a esperança. (...)"
*
*
*

25 de outubro de 2011

" Com a noite a aproximar-se rapidamente, iniciou-se uma discussão sobre o que seria mais eficaz: fazer uma perseguição imediata ou esperar até ao nascer do dia. Independentemente das diferentes opiniões, todos estavam profundamente afectados pela situação. Há algo no coração da maioria dos seres humanos que é incapaz de tolerar o sofrimento infligido a inocentes, sobretudo quando se trata de crianças. Até nas prisões mais duras há homens destroçados que são, muitas vezes, os primeiros a descarregar a sua raiva sobre aqueles que maltrataram crianças. Mesmo num mundo de relativa moralidade, fazer mal a uma criança ainda é considerado um acto absolutamente errado. Ponto Final! (...)

Wilkowsky deve ter feito um sinal aos outros porque, apesar de Mack não ter ouvido, sentiu que Emil e Tommy, de repente, o seguravam pelos braços enquanto seguiam a agente especial pelo curto caminho até à cabana. Três homens adultos, de braços dados numa cadeia de solidariedade especial, caminhando juntos em direcção ao seu pior pesadelo. (...)

É muito fácil ser levado pelo jogos dos "ses", deslizando rapidamente na espiral do desespero. Se tivesse decidido não levar as crianças naquela viagem; se tivesse recusado quando elas pediram para usar a canoa; se tivesse partido na véspera; se, se, se. Não ter podido enterrar o corpo de Missy ampliava o seu fracasso como pai. O facto de ela ainda poder estar desamparada, algures na floresta, assombrava-o todos os dias. Agora, três anos e meio depois, Missy era considerada oficialmente vítima de homicídio. A vida nunca mais voltaria à normalidade, se é que alguma vez a vida é normal. A ausência de Missy criara um enorme vazio. (...)

- Na verdade, é bem simples. O ser transcende sempre a aparência, aquilo que só parece ser. Assim que começas a descobrir o ser que há por detrás de um rosto muito bonito ou muito feio, de acordo com os teus conceitos e preconceitos, as aparências superficiais apagam-se, até deixarem, simplesmente, de ter importância. É por isso que Elousia é um nome tão maravilhoso. Deus, que é a base de todo o ser, reside no interior, à volta e através de todas as coisas (emergindo, em última instância, como o real); e qualquer aparência que mascare essa verdade acabará por cair. (...)

"Crescer significa mudar e a mudança envolve riscos, passar do conhecido para o desconhecido." (Autor Desconhecido)

- Mackenzie, não existe entre nós o conceito de autoridade superior, apenas de unidade. Estamos num círculo de relacionamento e não numa cadeia de comando, ou de "grande cadeia de ser", como designavam os teus antepassados. O que estás a ver aqui é um relacionamento sem qualquer hierarquia. Não precisamos de exercer poder sobre o outro porque estamos sempre a procurar o melhor. A hierarquia não faria sentido entre nós. Na verdade, isso é um problema vosso, não nosso. (...)

- É simples de mais, mas nunca é fácil para vocês. A solução é uma reviravolta. Voltarem para mim, Abdicarem dos vossos hábitos de poder e manipulação e simplesmente voltarem-se para mim - explicou Jesus, quase como se implorasse. - As mulheres de um modo geral, acham difícil voltar as costas a um homem e parar de exigir que ele satisfaça as suas necessidades, lhes proporcione segurança e lhes proteja a identidade. Acham difícil voltar para mim. Os homens, por sua vez, acham muito difícil abdicar das obras das suas mãos, da sua própria busca de poder, segurança e importância. Também acham difícil voltar para mim. (...)

- Melhor, talvez, mas ainda assim não seria suficiente. O poder corrompe, nas mãos de seres humanos independentes, sejam homens ou mulheres. Mack, não vês que representar papéis é o contrário do relacionamento? Queremos que homens e mulheres sejam parceiros, iguais face a face, cada qual único e diferente, distintos em género mas complementares, e cada um recebendo o poder unicamente de Sarayu, de quem emana todo o poder e autoridade verdadeiros. Lembra-te que nada tenho a ver com desempenho e eu não preciso de me adaptar a estruturas artificiais. Eu tenho a ver com existência. À medida que cresces no relacionamento comigo, o que fizeres apenas reflectirá quem realmente és. (...)

- Usemos o exemplo da amizade e veremos como a remoção do elemento de vida de um substantivo pode alterar um relacionamento. Mack, se tu e eu somos amigos, há uma iminência no seio do nosso relacionamento. Quando nos vemos ou quando estamos separados, há a iminência de estarmos juntos, de rirmos e falarmos. Essa iminência não tem definição concreta: é viva, dinâmica, e tudo o que emerge do facto de estarmos juntos é uma dádiva única que não é partilhada por mais ninguém. Mas o que acontece se eu substituir "iminência" por " expectativa", verbalizada ou não? Subitamente, a lei entra no nosso relacionamento. Agora, espera-se que te comportes de um modo que vá ao encontro das minhas expectativas. A nossa amizade viva deteriora-se rapidamente e torna-se uma coisa morta com regras e exigências. Já não tem a ver connosco, mas com aquilo que os amigos devem fazer, ou com as responsabilidades de um bom amigo. (...)

"Não há sofrimento na Terra que o Céu não possa curar." (Autor Desconhecido)

Respira em mim... respira fundo,

Para que eu respire... e viva.

E dá-me um abraço apertado para eu dormir

Leve e segura por tudo o que dás.

Vem beijar-me, vento, e leva o meu fôlego

Até que tu e eu sejamos um só,

E dançaremos entre os túmulos

Até que toda a morte se vá.

E ninguém sabe que existimos

Abraçados um ao outro,

A não ser Aquele que soprou o hálito

Que me abriga livre do mal (...)

"A fé nunca sabe para onde está a ser levada, Mas conhece e ama Aquele que está a levá-la." (Oswald Chambers)

A Terra repleta de céu,

E cada arbusto vulgar incendiado com Deus,

Mas só aquele que vê tira os sapatos;

Os outros sentam-se à volta e colhem amoras.

- Elizabeth Barrett Browning"

*
*
*

20 de outubro de 2011

A CABANA???

A cabana...após passar aquele sofrimento terrível da perda da filha, Mack entra num mundo MA.RA.VI.LHO.SO. Com Deus! Sim...com Deus! E é tão inspirador e calmante... Porque não acreditar...porque não ter fé... Que mal tem, aqueles que se apoiam em algo que não vêem... Não é isso que é ter FÉ??? Acreditar em algo que não está ao nosso alcance?

Estou,...! Simplesmente a A.MA.R :)

*
*
*

18 de outubro de 2011

Realmente, amei a Calpurnia. Ela é tão linda e tão esperta :)

Uma personagem verdadeiramente, unforgettable.

*
*
*

19 de setembro de 2011

“Mary nunca, por nunca desistiria da plantação. Isso significaria trair o seu pai e o pai dele e todos os Toliver antes deles que haviam lutado para arrancar a terra à floresta, que haviam suado e labutado, sacrificado e morrido pelos milhares de hectares que viviam para ver crescer com orgulho do seu trabalho. Jamais seria capaz de sacrificar Somerset por causa do orgulho masculino! Mas... amava Percy. Ele era um tormento constante que ela não conseguia esquecer, por muito que tentasse.”

*
*
*

24 de agosto de 2011

"Suavemente, fechei a porta da casa de banho atrás da minha mãe. Permaneci no quarto vazio, ouvindo o som da água a correr e observando os morcegos a mergulhar no escuro do lado de fora da janela.
O meu coração estava repleto de uma mágoa impregnável e duradoura. Indirectamente, o meu pai podia ter contribuído para a morte de Saffie. Se tinha sido o amante que a tinha matado. E Fleur tê-lo-ia conhecido.
Durante esses momentos, compreendi que, quando a vida em comum dos meus pais chegou ao fim, o meu pai só tinha trinta e dois anos e a minha mãe vinte e cinco. Se ele tivesse vivido, o casamento deles não teria resultado. Era impossível que resultasse.
Teríamos crescido menos dependentes dele. A minha mãe ter-se-ia apaixonado, como aconteceu mais tarde, e tê-lo-ia trocado por Fergus ou por outro homem. O meu pai ter-se-ia tornado mais promíscuo e menos cauteloso. A vida deles em comum não teria tido provavelmente um final feliz. O final feliz que tem habitado os meus pensamentos, toda a minha vida, apesar do meu amor por Fergus.
Foi preciso saber que o meu pai era homosexual para compreender isto. Mas agora, compreendendo este simples facto, sentia-me velha e cheia de remorsos.
Pensei em Jack e na desigualdade do nosso amor. Cingi o meu ventre inchado com os braços. Jack fora extremamente paciente, na esperança de que eu dissesse as palavras que significariam o meu compromisso com ele, com o nosso filho e uma vida a dois.
Pensei em Fergus, como fora terno com Fleur, esperando, porque a amava profunda e altruisticamente. Compreendi como se tinham tornado próximos, vivendo a sua vida absolutamente juntos, com toda a sua tragédia e felicidade.
Era isso que eu desejava. Desejava tudo isso com Jack. Tinha agora a certeza absoluta. A minha vida era ao lado dele e tinha de ligar-lhe a dizer-lho. Tinha a sensação de que era o meu primeiro acto verdadeiro reflectido. Era uma mulher adulta. Tinha trinta e três anos, era muito mais velha do que Fleur fora na sua vida com o meu pai.
Haveria de acarinhar sempre a recordação do meu pai porque era a minha recordação, um homem grande e belo que nos fazia guinchar de riso. Um homem que nunca envelheceria e se tornaria irritável. Um homem que era um enorme rochedo sólido e trazia felicidade onde quer que fosse. Mas era também o mesmo homem que, sabendo o que era, se casara com uma jovem bailarina e a deixara virar as costas ao seu talento, por ele, quando devia estar consciente do perigo. Sabia, sabia a que ponto ela o idolatrava em absoluto. Destroçou-lhe o coração, o pai que eu amava. Destroçou o coração da minha mãe e ela nunca usou isso como uma desculpa com ninguém. Quis que eu conservasse o pai encantador da minha infância e, ao fazê-lo, quase destroçou também o coração de Fergus, obrigando-o a assistir diariamente aos meus esforços para a punir.
Recordei como a minha avó fora dura com ela. Laura considerava Fleur fraca e irresponsável. Pergunto-me se o meu avô suspeitava. Sempre fora muito chegado a Fleur e sempre a protegera.
Saio para uma noite tão quente que o ar é como veludo nos meus braços nus. O sol deixou linhas onduladas e escarlates. Nuvens escuras, com a forma de charutos, tingidas de dourado, pairam sobre um mar que daqui se move imperceptivelmente, pequenos reflexos acendendo as ondas.
Detenho-me, apoiada na balaustrada do alpendre, consciente das minhas mãos na madeira, dos aromas transportados na noite. Flores, especiarias, o leve cheiro dos esgotos; música chinesa e uma melopeia aguda de vozes. Os fantasmas do meu pai e de Saffie parecem suspensos no agitar seco das palmeiras.
Mas o que estou verdadeiramente a pensar é na extraordinária coragem da minha mãe. O amor e lealdade a David perduraram muito para além da sua morte. Tarde de mais, sei que é possível amar duas pessoas de modos muito diferentes. Um amor não anula o outro mas faz tão parte dele como Fergus era parte da vida do meu pai e da de Fleur.
Já não tenho lágrimas mas guardo mágoa. Não posso mudar a vida da minha mãe mas posso alterar a obstinada passagem da minha. Sempre que o meu filho se mexe dentro de mim, sinto-me mais próxima de compreender Feur. Não posso ordenar os meus pensamentos nem compreender as minhas emoções numa questão de horas e sei que aquilo que sinto agora se transformará noutra coisa. Mas tem de ser algo com que eu seja capaz de viver e que seja capaz de aceitar.
Toda a minha vida desejei regressar a um tempo de segurança e felicidade, quando éramos uma verdadeira família. A minha mãe e o meu pai, eu e a Saffie. Quando o sol tropical batia mas nunca queimava. Quando as chuvas eram velozes mas nunca ninguém se afogava nos esgotos da monção. Quando eu e Saffie desenhávamos pequenas casas quadradas com janelas e um caminho no jardim com flores e os traços estilizados de uma mãe e um pai com caras felizes e sorridentes.
Foi disto que Fleur me protegeu intrepidamente toda a minha vida. Do momento em que uma pessoa se apercebe de que nada disso existe; que não passa de uma ilusão, a luz do sol e os rostos sorridentes. É o que se esconde atrás que conta.
Penso em Jack. "Não há azar", é o que ele diz sempre, como é típico dos neozelandeses, aconteça o que acontecer. "Nao há azar, querida."

*

*
*

23 de agosto de 2011

A mágica caixa de uma antiga princesa inca. Escritor e fotógrafo, o pai de Frederica traz de uma das suas muitas viagens pelo mundo um presente especial. A filha adora-o, e quando os pais se separam aquela será a única recordação do pai. A menina torna-se mulher, mas será sempre ao passado que irá buscar as suas melhores memórias. É contudo quando se apaixona pela primeira vez e sente a força do amor, mas também a dor da perda, que entende o significado daquela mágica caixa com o desenho de uma borboleta. Um intenso e delicado romance a levar-nos do Chile à Cornualha. Um dos mais aplaudidos romances de Santa Montefiore.

Ramon precisa de viajar pelo mundo. Quando conheceu a mulher, Helena, ela sabia da sua paixão e seguia-o nas suas aventuras. Com o nascimento dos filhos tudo se altera. Helena fica no Chile enquanto o marido continua as suas explorações pelo mundo. A quem não parece incomodar a ausência do pai é a Frederica, a sua filha. Aguarda-o a cada viagem com igual entusiasmado, ansiosa por ouvir as suas histórias e descobertas. No regresso de mais uma das suas incursões pelo Peru, Ramon oferece à filha uma caixa com pedras incrustadas em forma de borboleta. Aquele caixa, assim conta à filha, teria pertencido a uma princesa inca... Frederica fica encantada com o presente. A distância cresceu contudo entre os pais e Helena decide regressar com os filhos à Cornualha, na Inglaterra. Frederica não se conforma. Muito ligada ao pai guarda a caixa da borboleta que ele lhe ofereceu como um dos seus mais queridos objectos. Em Inglaterra tem de se adaptar a uma nova vida, mas, já só mulher, descobre o verdadeiro segredo daquele presente. Descobrindo o amor e a perda, a jovem Frederica embarca numa viagem de auto descoberta. Ou se afunda na tristeza, ou se ergue mulher, inteira, mais forte do que nunca. História de amor, perda e transformação vivida entre a paisagem chilena as zonas rurais de Inglaterra. Depois d’ «A Árvore dos Segredos», este romance confirma Santa Montefiore como uma das mais apaixonantes romancistas da actualidade.

*
*
*

1 de junho de 2011

Um Ano de Luas Cheias


A lua cheia de Janeiro: A Lua do Lobo

Segundo os antigos, sob esta lua os lobos uivavam de fome em redor das aldeias nativas americanas. Durante a lua cheia de Janeiro, as pessoas tendem a comer de mais, a beber de mais e a brincar demasiado numa tentativa de preencher o vazio do Inverno.

*

A lua cheia de Fevereiro: A Lua de Neve

Fevereiro é tradicionalmente o mês em que mais neva. As pessoas costumam sonhar com locais onde preferiam estar quando dormem sob a Lua de Neve.

*
A lua cheia de Março: A Lua da Minhoca

Na Primavera, o solo fica mais macio e as minhocas começam a aparecer...bem como os pássaros que delas se alimentam. Durante a primeira lua cheia de Março é difícil resistir à tentação de possivelmente se ser apanhado a fazer algo audaz ou escandaloso.

*
A lua cheia de Abril: A Lua Cor-de-Rosa

A lua cheia marca o florescimento de uma espécie de planta rasteira que dá flores cor-de-rosa logo no início da Primavera. A esperança que há no ar durante uma Lua Cor-de-Rosa torna esta a melhor altura para pedir alguém em casamento.

*

A lua cheia de Maio: A Lua de Leite

A abundância de verdura para comer nesta altura do ano concede a vacas e cabras o potencial de produzirem um leite rico e fortificado. As pessoas muitas vezes acreditam que é sob uma Lua de Leite que são mais atraentes.

*

A lua cheia de Junho: A Lua de Morango

Junho é tipicamente o mês em que os morangos amadurecem e são apanhados. A Lua de Morango é também a melhor altura para buscar o perdão. A doçura parece prolongar-se mais durante ste período.

*

A lua cheia de Julho: A Lua do Gamo

Os gamos começam a ter hastes novas por volta desta altura. Os jovens do sexo masculino tendem a desentenderem-se uns com os outros e a exibirem-se mais durante a lua cheia de Julho.

*

A lua cheia de Agosto: A Lua do Esturjão

As lendas nativas americanas dizem que o esturjão dos Grandes Lagos e do lago Champlain se apanha com maior facilidade durante a lua cheia de Agosto. Esta lua cheia tende a tornar as pessoas agitadas e assoberbadas.

*

A lua cheia de Setembro: A Lua das Colheitas

É a lua cheia mais próxima do equinócio outonal, resplandecente o suficiente para permitir aos agricultores trabalharem até tarde e recolherem o que cultivaram. É uma altura de introspecção. As pessoas ficam muitas vezes taciturnas durante essa lua.

*

A lua cheia de Outubro: A Lua do Caçador

Historicamente, depois das colheitas, com as folhas a tombarem e os campos despidos, era mais fácil ver para caçar sob esta lua cheia. Se contemplar a Lua do Caçador com uma pergunta, a resposta a ela tornar-se-á mais clara.

*

A lua cheia de Novembro: A Lua do Castor

As armadilhas para o castor eram colocadas durante esta altura, antes que as águas congelassem e assim houvesse peles em abundância para os meses frios que se avizinhavam. Para algumas pessoas, a Lua do Castor é a última oportunidade para fazerem alguma coisa que quiseram fazer mas adiaram, antes que o peso do Inverno se abata sobre elas.

*

A lua cheia de Dezembro: A Lua Fria

Esta lua cheia anuncia a chegada de longas e escuras e frias noites. Sem dúvida, a melhor lua para se dormir de todo o ano.

*
*
*

17 de maio de 2011

Um conto de fadas para adultos, ao estilo de Tim Burton ou Lewis Carroll.

*
*
*

28 de abril de 2011

26 de abril de 2011

Josey Cirrini tem a certeza de apenas três coisas na vida: o Inverno é a sua estação preferida, está perdidamente apaixonada e um doce sabe muito melhor quando degustado na privacidade do seu esconderijo secreto. Enfrentando uma vida triste, o seu único consolo é a pilha de doces e romances a que se entrega todas as noites... Até que descobre que no roupeiro se esconde nada mais nada menos que Della Lee Baker. Fugindo a uma vida de má sorte, Della Lee decide ajudar Josey a mudar de vida. E, em breve, a jovem renunciará às guloseimas e descobrirá que, mesmo sem elas, a vida pode ser doce.
*
*
*

21 de abril de 2011

Num jar­dim escon­dido por trás de uma tran­quila casa na mais pequena das cida­des, existe uma maci­eira e os rumo­res que cir­cu­lam dão conta de que dá um tipo muito espe­cial de fruto. Neste encan­ta­dor romance, Sarah Addi­son Allen conta a his­tó­ria dessa árvore encan­tada e das extra­or­di­ná­rias pes­soas que dela cuidam…
As mulhe­res da famí­lia Waver­ley são her­dei­ras de um legado mágico — o jar­dim fami­liar, famoso pela sua maci­eira, que pro­duz fru­tos pro­fé­ti­cos, e pelas suas flo­res comes­tí­veis, imbuí­das de pode­res espe­ci­ais que afec­tam quem quer que as coma. […]
*
*
*

12 de abril de 2011

" Isto é intimidade: a troca de histórias no escuro. Para mim, este acto, o acto de conversar no silêncio da noite, ilustra, mais do que qualquer outra coisa, a curiosa alquimia do companheirismo. Porque quando Filipe descreveu a braçada do pai, agarrei naquela imagem e costurei-a cuidadosamente na bainha da minha própria vida e, agora, carregarei isso comigo para todo o sempre. Enquanto for viva, e mesmo muito depois de Filipe já ter partido, a sua recordação de infância, o seu pai, o seu rio, o seu Brasil, tudo isso terá passado a fazer parte de mim, de alguma forma.

***

Nem mesmo a Stasi da Alemanha de Leste comunista - a força policial totalitária mais eficaz que o mundo alguma vez conheceu - conseguia escutar todas as conversas privadas em todas as casas particulares às 3 da manhã. Nunca ninguém foi capaz de o fazer. Por mais modesta, trivial ou séria que seja a conversa de almofada, essas horas sussurradas pertencem exclusivamente às duas pessoas que as partilham uma com a outra. Aquilo que se passa entre um casal sozinho, às escuras, é a própria definição da palavra "privacidade". E não estou apenas a falar de sexo, mas sobre o seu aspecto muito mais subversivo: a intimidade. Todos os casais do mundo têm potencial para se tornar, com o tempo, uma nação pequena e isolada constituída por duas pessoas - criando a sua própria cultura, a sua própria língua e o seu próprio código moral, que mais ninguém pode conhecer.

***

Mas não podemos impedir as pessoas de quererem o que querem, e acontece que muita gente quer intimidade com uma pessoa em especial. E uma vez que não há intimidade sem privacidade, as pessoas tendem a repelir com força qualquer pessoa ou qualquer coisa que interfira com o simples desejo de ficar sozinho com o ser amado. Embora as figuras autoritárias ao longo da história tenham tentado reprimir este desejo, não conseguem que o abandonemos. Continuamos a insistir no direito de nos ligarmos a outra pessoa em termos legais, emocionais, físicos e materiais. Continuamos a tentar, uma e outra vez, por menos aconselhável que seja, recriar a figura com duas cabeças e oito membros descrita por Aristófanes como a epítome da união humana perfeita.

***

Até certo ponto, então, Felipe tem razão: o casamento é um jogo. Eles (os ansiosos e poderosos) estabelecem as regras. Nós (os vulgares e subversivos) vergamo-nos obedientemente perante essas regras. E depois vamos para casa e fazemos o que diabo nos der na gana.

***

Portanto, é aí que vou ficar - aí mesmo, nesse lugar de subversão serena, recordando todos os outros casais teimosamente apaixonados ao longo dos tempos, que também sofreram todo o tipo de intromissões irritantes até conseguirem aquilo que queriam: um bocadinho de privacidade onde praticar o amor. Nesse canto, finalmente sozinha com o meu amor, tudo ficará bem, e tudo ficará bem, e todas as coisas ficarão bem. "

*

*

*

30 de dezembro de 2010

Eu que Amo Tanto II

Deus - "Tenho dois medos na vida: de ficar doente, muito doente e não me poder mover, e de me sentir sozinha. São estes os meus medos. (...) O que me deixa indignada...há coisas, assim, que me deixam indignada, o ser humano havia de se ver ao espelho e perceber a beleza que pode fazer, e, num momento de crise, aparece esta gente que atira o próprio filho pela janela como vi na televisão e, assim, eu fico catatónica, indignada. De bom, eu acho que há o amor, fazer as coisas bem fazendo o bem, encontrar pessoas, e as melhores coisas da vida são de graça, né? (...) Nascer perfeito não existe, né? Mas ele é realista, sonhador, eu diria que ele é assim...uma agulha num palheiro. E eu também, né? E, geralmente, as agulhas no palheiro encontram-se. (...) Única não, mas acho que sou diferente. (...) Tenho esta tendência para me apegar e não posso, tenho de ter concentração na vida, meu deus, mas depois eu olho-o e penso que ele é muito jeitoso, meu deus, é bonito e maravilhoso e depois olho para outros casais e digo: é parecido, mas o meu ainda é melhor e depois vou-me encontrar com ele e fico toda preocupada, assim, né, tenho medo dos homens. Tenho, tenho medo dos homens porque eu não me domino às vezes, né? (...) Viver é difícil, acho que para toda a gente. Não é fácil. É bom termos um mote, haver alguma coisa em que se possa confiar. Quem não dá valor a nada não ama nada, né? (...) Já estou a proibir-me de ver porque o orkut é uma coisa muito séria. Ali fica-se a saber quem entrou, quem saiu, entramos no orkut dos outros, sabemos se alguém nos dá bola, e depois eu vou lá e descubro um monte de coisas da pessoa e vou saber quem está a publicar recadinhos para a outra pessoa e faz-me ciúmes porque quando eu namorava eu ficava a ver o orkut dele. (...) Agora parei com isso. Eu sei que o outro é o outro e que eu não o consigo controlar. Só se engana quem quer. Eu tenho domínio sobre mim própria. O outro tem a sua liberdade, o direito de ir e vir. Eu tenho de ter um pé na realidade. Há um ataque de nervos, ansiedade, nenhuma roupa que se põe fica bem, de que cor, que sapatos, põe a irmã no meio, e já me liga, namorar um tipo que fica o dia inteiro connosco é de descontrolar, meu, vamo-nos pegar, vamo-nos apegar, vou ficar a ver se ele olha para o lado, para a minha amiga, ele é um homem, percebe?! (...) Os homens, porque um homem é uma coisa boa demais. Eu perco a calma, eu amuo, fico a pensar, a pensar, e depois digo alguma coisa. Eles gostam porque adoram ver uma mulher ficar transtornada. Se ficares calminha eles não percebem. Eu consigo ser má. Há uns tipos que só funcionam no chicote, só ouvem quando os atiramos pela escada abaixo. Eu dou-lhes uns estalos senão eles começam a achar que são o máximo, com o ego super lá em cima, pensando que podem fazer tudo, parecem uns pombos a andar, tipo aquele peito rufado de penas, achando-se o máximo, sem limites, uns tontos. O meu maior defeito é esta carência que me move e me faz apegar a eles. E eu fico a desmoronar-me assim, pelos lados, deixo as coisas irem acontecendo e depois é que encaro o caos, fico confusa e, quando me dá esta confusão eu penso assim, puxa, como é que tudo chegou a isto, como é que eu consegui deixar isto chegar a este ponto, assim, as coisas, a situação, nós, sabe ??!! Meu deus, mas que absurdo!"

Imaturidade - "Eu queria muito pouco, esperava muito pouco, era demasiado emotiva, e foi neste contentamento com o que sobrava que me instituí como auxiliar afectiva, auxiliar até da minha maior e mais bela história de amor, como ousei qualificá-la. Não agora, agora já não, desde que estou no grupo do eu sozinha, e inicio uma delicada relação de descobertas e apreço pela minha pessoa. (...) A relativização é uma boa forma de aceitação e manutenção. E o que é um casamento senão o exercício diário da aceitação, para além de um esforço conjunto de manutenção? (...) Não houve outra solução, não conseguia relacionar-me com ninguém, já nem sabia se aquilo era amor ou só uma vontade irreprimível de ganhar a batalha. O facto é que submeti a um triângulo amoroso. Submissão, vírgula. Completamente descontrolada, ora seduzia, ora controlava, ora perseguia. Quando me transformei numa obssessiva insuportável, desapareceram os amigos que ainda se importavam. Então, escondi-me, coberta de vergonha pela situação que permiti e ajudei a sustentar. Às vezes pergunto-me se não fui eu a engenhosa e solitária arquitecta de tudo. (...) Cinzenta, chata, eu gritava para que me conseguissem ouvir. Entrei num grupo, baixei a voz, ouvi outras mulheres, até ao dia em que estas mulheres me ouviram a mim. Só então passou. Conheci a serenidade. (...) Como amigo revelou-se muito melhor do que como marido. Deve pensar o mesmo de mim. (...) Tenho o tempo todo do mundo para me reinventar. No amor, pretendo arrumar o pires. Mendigar nunca mais. Eu mereço um prato grande e cheio. Procuro alguém que me faça feliz fora da cama. Ah...se eu soubesse aos dezasseis como tudo seria hoje, tinha jogado melhor o jogo!"

Inquietação - "Deu-me para estudar os triângulos. Interessam-me, de um modo especial. O triângulo é um polígono com três lados. As minhas histórias, desde a mais remota lembrança, sempre tiveram três versões. Todas razoáveis. Fascinante. Não é uma circunferência, não é um quadrado. É um triângulo, uma tríade, para ser mais exacta, a representação desta vida que eu tenho vivido como se fosse a última. Ou a primeira. Triângulo escaleno, de lados desiguais. Se bem que nalguns períodos de maior equilíbrio, configura-se como isósceles. Paz. Dois dos lados estão iguais. O equilátero nem cheguei a conhecer. Não me esforcei. Prestidigitadora de emoções, consigo, sozinha, fazer da minha cabeça um triângulo agudo, e por vezes, obtuso. Um cansaço. Gosto bastante do modelo semiótico, uma relação em que o primeiro se liga directamente aos dois últimos, que, por sua vez, só se relacionam entre si através do primeiro. Vários ângulos da mesma questão, dando a alguém uma posição de vantagem. Gosto. Quero. Eu primeiro! Jogo inquieto e nervoso. Uma triangulação danada! (...) Ainda que eu não me considere uma mulher que ama demais padrões. Não! Não sou de ficar ao telefone a ligar compulsivamente, está, és o homem da minha vida. A minha condição é outra: sou obssessiva em pensamento. Este é o meu triângulo privado. (...) Quando conheço um tipo, pode apostar que ele está na merda. Eu entro armada em salvadora. Sou quem dá mais, regenero, vou tirar este gajo desta tripe, vou ser a mulher da vida dele! É desta forma que eu caço o amor! (...) Gosto desta condição de ter um relacionamento destrutivo, cheio de adrenalina. Alguém vai desaparecer e, o mais importante, não serei amada porque, se for, não vou aguentar. Se gostarem de mim, se forem bons e tiverem uma vida simpática, não vai haver faísca. Eu não curto uma cena normal. Na verdade, vivo na ilusão, eterna adolescente a sonhar grandes amores. Romeu e Julieta na cabeça, e não é nada disso. Por favor!! Já não tenho treze anos e estamos no século XXI. (...) É uma história nova, que me instiga, que me tira a tranquilidade. Adoro pessoas que me tiram o tapete de debaixo dos pés por três segundos. Amo a adrenalina a entrar nas veias, e faço tudo para não pensar na puta da ressaca emocional que vem depois. Que vício mais doido. Amo-o e odeio-o. (...) Ando a chorar muito. Não me estou a aguentar. Tento concentrar-me, mas a pressão é muita. Com a auto-estima no fundo do mar, presumo que qualquer mulher é melhor que eu. Antes não o fazia. Anda tudo muito trágico, em mim, ultimamente. O fundo do poço está bem pertinho. E eu não estou a ser honesta, é isso! Há uma honestidade implícita na salvadora, na que entra num triângulo para socorrer. Como defender quem constrói, deliberadamente, o seu jogo triangulado?! Infelizmente, tenho de ser sincera: há horas em que eu acho isto, esta compulsão, esta intensidade toda muito agradável. Podia era não ser 24 horas por dia, é verdade. Mas isso não invalida a questão, não deixa de ser agradável. Jesus do céu, como ser feliz se, neste momento, eu sinto que não presto?!"

Busca - "Apaixonada, eu chorei tanto que fazia dó. Apaixonada? Doente, é o que é! Seguindo o conselho da sogra "vai morar sozinha na tal casinha e tenta realizar os teu sonhos querida", eu fui. Passados três meses, o cobarde voltou, arrependido, propondo-me coabitação sem casamento. Eu, que era capaz de me deitar no chão para ele me passar por cima, aceitei. Tudo em nome do amor. Já usei esta expressão antes, não usei? Besta, idiota, passei a brincar às casinhas, às esposas perfeitas. Lavava, passava e cozinhava enquanto ele fazia os seus compromissos ou o interminável futebol com os amigos. Quando eu reclamava, ele dizia-me: fazes isso porque queres. E eu pensava: é verdade, e o meu mundo virava-se ao contrário. (...) Neste período, tentei filosofias orientais para aprender a perdoar, zanguei-me com a minha sogra, preenchi a vida com orações e com ódios. Não é pouco. Traí-me a mim mesma durante mais uns dois anos. Marcava a quilometragem do carro do cretino, acordava cedo para conferir na garagem da casa da avó e continuava a achar que o mundo só valia a pena se fosse vivido em tão nobre companhia. Desculpe a minha existência, mea culpa, mea culpa, com licença, perdão. (...) Eu aprendi. A duras penas. A vida é boa! É uma desgraçeira, mas é boa! Bebe mais um copo? Saúde!" :)
*
*
*

29 de dezembro de 2010

DEVOREI

MULHERES QUE
AMAM DEMAIS

Angústia - "Esta angústia não pode ser paixão. Não é amor, é uma doença, doença. Um mal de não querer ver os amigos de só querer ficar ao pé dele, de não comer. No início era lindo. Eu lembro-me. Tenho a certeza. Não havia discussões. Havia respeito, muitas gargalhadas, afecto, noites mal dormidas, até não mais."

Personagem - "Não tenciono responder. Não mesmo. Além do mais, porque sei que daqui a bocadinho ele vai mandar outro recado pedindo desculpa pela agressão, vai dizer que está decepcionado comigo e depois vai declarar-se um ser humano normal que viu outra pessoa em mim, não gostou, e ficou muito zangado! (...) Os homens que escolhi eram todos narcisistas, vaidosos, imaturos, mais novos do que eu, inseguros e lindos, todos eles. Todos me usaram, todos abusaram de mim, todos se acomodaram e me mentiram e traíram. Eu a humilhar-me, esperando um telefonema, prato pronto na mão, café na cama, com pena de mim própria na minha tolerância elástica. Minto. Tive um namorado perfeito, um tipo espectacular que me entendia, que me dava liberdade, que era tudo de bom e que eu aguentei por um ano e meio, nem um minuto a mais. Melga, grande melga, um relacionamento sem adrenalina, chato, pegajoso, boa onda, boa conversa, nenhuma discussão, sempre disponível, vade retro. Obriguei-me a ele como se não tivesse em mim a perversidade. (...) É muito louco, mas só agora consigo identificar a patologia como se não fosse comigo, como uma entidade desprendida de mim mesma. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito quilos perdidos, e depois não choro mais. Às vezes dá-me preguiça, mas tenho uma árdua jornada a encarar pela frente. Tenho de mudar tudo em mim. Tudo, tudo. Há alturas nas quais... Porra meu, que seca, mas preciso descobrir do que é que EU gosto. Eu preciso de descobrir o que EU quero fazer, a minha profissão, eu preciso de me inventar. Atenção, inventar, não reinventar, pois considero que nunca existi até agora. Eu fui os outros, eu fui os homens que tive, os pais que me criaram, as amizades que logrei com os meus agrados, com as minhas personagens de conveniência, eu fui ninguém. Massa amorfa e moldável, fui tão somente o que eles queriam que eu fosse ou, pelo menos, aquilo que eu achava que eles queriam que eu fosse. Adaptei-me. Agora sou um feto, um girino, um ser em formação. Ando a viver um dia de cada vez, sem fazer planos. Ando a levar uma vida normal e até me relaciono com pessoas normais, dessas que muitos acham feias. (...) Vou-me transformar numa nova mulher! Olhe bem para mim, porque esta sou eu, repaginada!"

Expectativa - "É bem verdade que tenho um comportamento muito parecido, talvez igual, quando me encanto por alguém, por isso a situação não é nova. Sofrer, quero dizer. (...) Ora, quem sabe dos meus defeitos sou eu. Impaciente e ansiosa, tropecei muito na vida. Eu crio expectativas em relação às coisas, às pessoas, e, quando o que eu esperava não vem como deveria, lido com a frustração. (...) Para mim, o amor é entendimento, é independente do sexo, há conversa, amizade, sintonia, e eu tive tudo isso no meu casamento, mas era demasiado imatura para lidar com tanta responsabilidade. (...) Do que eu gosto mesmo é dos começos. O tempo estraga o resto e, às vezes, o resto começa muito, muito cedo. Está aqui a memória que não nos deixa mentir. (...) O meu orgulho é maior do que qualquer outro sentimento, neste instante, e preciso de dar o primeiro passo e de parar com esta mania de não conseguir ficar sozinha. O meu consolo é que ninguém é totalmente feliz! Há sempre uma situação dolorosa que se está a viver, mas que, depois de ter sido vivida, passa e só fica a lembrança, porque a dor em si vai-se embora."

Desespero - "Sou doente como uma alcoólica, como que precisa de se tratar e expurgar todos os dias as suas mágoas, temores, neuroses e expectativas, para não recair naquela droga que alivia, macia e confortável como veludo, e depois mata. (...) Eu sou aquela que se doa a cada vez que escolhe o amor. (...) Sonhos detonados: casa própria, casamento, rendição e confiança, a mulher em mim, a felicidade, tudo detonado. A minha armadilha fechando-se sobre mim mesma. E eu que só queria um grande amor. (...) Queria tanto ter ouvido: eu vou cuidar de ti e vais ficar o resto da vida comigo. Era isso que eu queria ouvir. Sou menos corajosa do que sou. Auto-destrutiva, possuo em mim uma força que me inferioriza, que me derruba. Coloco-me sempre um pouco abaixo de alguém. Sempre. É a minha postura. Procuro controlar-me. A forma sofrida de amar está a transformar-se em dúvidas existenciais. Não sei explicar o que ainda não tem explicação. Tudo o que sonho ou penso e não faço passou a uma discussão filosófica, distanciou-se do material e entrou lenta e sinuosamente nos desvãos do meu cérebro. Milhares de milhões de neurónios activos. Se amar não é entregar tudo, o que é? Analiso-me. Neste segundo. Mais. A vida pode ser leve e saudável fora destes meus muros. Preencho algumas falhas. Descubro outras. Ainda não encontrei a razão que justifica esta sensação de que me falta alguma coisa. Desde menina. Mas alguma coisa falta em mim e não sei o que é."

Reconstrução - "Apaixono-me por gente que não tem nada a ver e tenho medo da intimidade. E é muita loucura, porque eu aceito as migalhas. Se olhou para mim, e chegou aqui ao pé, acho que devo premiá-lo pela sua ousadia, e penso que gostou de mim e que me quer namorar. (...) Eu, parvinha, a acreditar na ilusão de que comigo ia ser diferente. Pois sim! (...) Digamos que estou em reconstrução. Quanto a ser feliz, acontece quando consigo fazer algo por mim. Ficar em casa num fim-de-semana, pintar as minhas unhas, sair-me bem numa prova, estar de bem comigo mesma, isto é ser feliz. (...) A minha verdadeira passagem para o mundo novo, a minha reconstrução definitiva, vai dar-se quando eu perdoar esse mesmo passado, quando eu conseguir deslizar pelas minhas memórias, caminhar comigo mesma e não me recriminar, nem me envergonhar. Eu quero o destino de um anjo! Ou de um ninja!" :)

*
*
*